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Cresci cercado por livros, discos de vinil, fitas K7 e HQs espalhadas como pequenos mapas de um universo paralelo.
Desde cedo, o mundo se apresentou a mim com lombadas coloridas e sons analógicos. Cresci cercado por livros, discos de vinil, fitas K7 e HQs espalhadas como pequenos mapas de um universo paralelo. Havia algo mágico na casa dos meus pais, algo que ainda hoje me visita em sonhos: uma pequena biblioteca onde o tempo parecia andar mais devagar.
Era ali que repousavam os discos dos meus irmãos mais velhos — trilhas sonoras de rebeldia e descobertas. Enquanto isso, minha mãe, com o cuidado de quem molda o mundo com gestos simples, me trazia restos de materiais escolares como se fossem oferendas a um pequeno deus da criação. Tintas, pincéis, lápis de cor… e argila. Com ela, eu esculpia dinossauros e outras criaturas da minha imaginação. E, entre bolos assando e cheiros de infância, ela me deixava usar o forno para tentar “cozinhar” minhas esculturas — que nunca sobreviviam, mas que, de alguma forma, se eternizavam.
Meu pai, observador atento, improvisou um ateliê para mim. Um pequeno reino onde eu pintava o que havia — tecidos, telas, paredes — qualquer superfície era tela. Cresci assim, mergulhado em cor, em textura, em arte.
E havia os livros. Ah, os livros! Meu pai e meu avô — vindo da distante Letônia, sobrevivente da Segunda Guerra — eram assinantes do Círculo do Livro. Uma editora mágica, de capa dura, cujos títulos chegavam como relíquias embrulhadas em papel marrom. Eles se desafiavam em duelos de leitura, e eu, pequeno, assistia aquilo como quem presencia uma cerimônia secreta.
Hoje, todos esses volumes estão comigo. Minha biblioteca particular — que batizei de Biblioteca Particular Edgar Allan Poe — é mais do que uma coleção: é um relicário. Um pedaço da minha história em prateleiras altas.
Sinto falta daquele tempo. Escrevia poemas em máquinas de escrever, tão criança, sem saber que a arte já tinha me escolhido.
Vieram depois as bandas de rock. A primeira era punk, crua e verdadeira, como a juventude deve ser. Com meus irmãos e amigos, descobri o som como outra forma de arte. Depois veio a literatura, mais intensa, e com ela o amor da minha vida: Meire. Hoje minha esposa, minha parceira. E com ela, as maiores razões para continuar: Alice e Beatriz, minhas filhas, meu futuro em forma de sorriso.
Hoje, vivo da arte. Mas, mais do que isso, vivo na arte. Ela me acompanhou quando todos me pediram para deixá-la. Ainda tentam. Mas estão longe demais para que eu escute. A arte fala mais alto. Ela sempre falou.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.